segunda-feira, 9 de novembro de 2009

O Rebelde Desconhecido

Em 1989 o mundo passou por um processo de grandes perspectivas que eclodiram na década seguinte. A queda do muro de Berlim prontificou o mundo para a certeza do fim de uma era de guerras frias e anunciava a era da nova ordem mundial. falava-se sobre o fim da história, a nova Roma, a hegemonia do capitalismo etc. Foi a alvorada da nova globalização. Mas um fato em especial (dentro do contexto das necessidades, tolerância e anseios de reformas para a nova década) ocorreu em 1989. Jeff Widener, fotografou no dia 5 de junho um registro de coragem e força da História da luta do homem, talvez o maior registro já fotografado. Jeff Widener fotografou a gênese do que pretendia (verdadeiramente) a coletividade de então, registrou a vontade de uma multidão simbolizada pelo feito de um único homem, um indivíduo sem rosto e sem nome, um indivíduo que não se sabe onde nasceu, quem eram os pais, se tinha ou não irmãos, onde viveu e estudou, quais seus sonhos, seus medos e desejos, quando se apaixonou pela primeira vez, quem já o amou e quem por ele foi amado. Tudo o que se sabe deste indivíduo é que em meio aos 400 mil manifestantes aglomerados que pediam reformas políticas na Praça da Paz Celestial na China em 05 de junho de 1989, foi ele, isto é, foi este indivíduo desconhecido que teve sua "voz" ouvida por todos, seu ato foi mais marcante que a lamentável chacina elaborada pelas autoridades e aplicada pelas forças armadas da China. Seu gesto nos mostrou que um mundo sem liberdades não é um mundo em que valha pena viver, e que este mundo é na verdade uma jaula, mas uma jaula sedenta, sangrenta, que tira de nós nossa identidade, nossa humanidade, nosso respeito próprio e pelos nossos irmãos de todas as nações, nossa fraternidade, nossa gênese, faz de nós desconhecidos marcados feito gado. Seu gesto transcendeu ao conflito da própria China e universalizou-se, virou um exemplo, nos lembrou porque lutar, nos trouxe de volta uma dignidade à muito perdida, aprisionada, guardada e temida por aqueles que a trancaram na masmorra de nossas almas, mas uma dignidade limpa, sem ranho, sem medo. Seu gesto lembrou que ainda temos nobreza na alma, e que a força para quebrar as peias que nos sangram e as correntes que contorcem nossa carne e alma está em nós, só depende de nós. O gesto de um desconhecido na tarde de 5 de junho de 1989, impedindo sozinho a passagem de tanques de guerra colocando-se a frente se seus canhões e armas arriscando ser dizimado, opondo-se ao medo, ao desespero, as autoridades, entregando seu corpo e alma à vontade e desejos de todos, opondo-se ao despotismo no maior conflito sangrento da História da China moderna e depois desapareceu (provavelmente morto instantes depois pelas forças armadas da China) foi um tapa em nossa cara, pois nos fez olhar para dentro de nós mesmos, e assim nos lembrou o quanto e por quanto tempo temos sido tão covardes.


Por Silvio N.S

Site oficial: http://www.jeffwidener.com/h/index.shtml